Crônicas Eleitorais Catarinenses: Carlos Moisés

Carlos Moisés, governador eleito com a onda bolsonarista em 2018, tenta a reeleição em 2022. E que viagem atravessou o comandante Moisés nesses quatro anos.

Comandante Moisés era um candidato totalmente desconhecido em 2018. Seu papel era ser o palanque de Bolsonaro no estado. Na falta de nomes em um movimento que ainda crescia e precisava de palanques, lá estava ele. Era bombeiro militar aposentado e tesoureiro do PSL no estado. Moisés estava longe de ser a estrela do bolsonarismo naquele período. Essa figura era de Lucas Esmeraldino, candidato ao senado.

O planejamento era bastante sólido: mantinha-se a elite política catarinense que não era adversária de Bolsonaro e se elegia um senador que dava ao presidente um aliado fiel, na mesma categoria do seu filho Flávio. A realidade, porém, dobrou a expectativa. Lucas Esmeraldino ficou vendo navios e Carlos Moisés foi eleito.

Sendo ele uma surpresa, eleito com uma maioria de votos, mas sem uma base política na Assembleia Legislativa, o governador tinha muito mais gente que o via pelas costas do que amigos fiéis. Mas, tinha a base bolsonarista que o elegeu, tinha voto, e era o governador do partido do presidente. A expectativa era alta, para o bem ou para o mal, afinal, Santa Catarina poderia ganhar muito destaque nacionalmente nesses quatro anos.

A questão é que Moisés surpreendeu, mais uma vez. Quando todos achavam que ele seria um Bolsonaro no estado, ele se mostrou bastante distinto, um tanto pragmático. Esses momentos apareceram logo nos primeiros meses, como as conversas com sindicatos e o Movimento Sem-Terra no estado, por exemplo. Outra surpresa foi a sua pouca vontade política de passar uma lei do Escola Sem Partido e, mais, entrou em colisão, no começo da pandemia, com a onda bolsonarista, ao ser um dos governadores que mais atuou em prol do lockdown, das vacinas e da ciência. Mas, foi pragmático o suficiente para não assinar um manifesto contra o presidente.

A sua atuação na pandemia surpreendeu até a sua oposição, porque, de todas as brigas, essa parecia ser mais desgastante com a sua base ou o seu trunfo presidencial. Base essa que era bolsonarista até a medula, e agia conforme os humores das redes do presidente. Nunca votou no governador por convicção política ou mesmo por acreditar no Comandante Moisés. Votou nele porque o seu número era o dezessete.

O governador surpresa se tornou um adversário político do presidente, com Bolsonaro agindo para que ele perdesse o cargo e que Daniela Reinerht, sua vice-governadora, tomasse o cargo e garantisse uma aliada fiel. Moisés ficou sem a base do presidente, que nunca foi sua, sem as costas largas da aliança presidencial e sem a Assembleia com quem tinha problemas de articulação política. Moisés caminhava para ser um ex-governador.

Todas essas ações políticas estavam também impulsionadas por políticas sanitárias que desagradavam o empresariado catarinense, e uma gestão de saúde que não fiscalizou as compras de respiradores no combate à pandemia. Essa sopa política que unia motivação e oportunidade, fez com que Moisés sofresse dois processos de impeachment.

No primeiro processo, sobre o crime de responsabilidade ao conceder aumento salarial aos procuradores do estado, para equiparar o salário aos servidores do Legislativo, o governador Moisés foi salvo por 6 a 3. No julgamento, Moisés foi socorrido muito mais pelos desembargadores, que não viram irregularidades, do que pela ALESC. Na votação, os bolsonaristas Sargento Lima, do PSC, e Kennedy Nunes, do PTB, votaram pela sua condenação. Já o MDB de Luiz Fernando Vampiro, se absteve. Esta primeira tentativa de impeachment, muito mais na motivação do que na oportunidade.

Já no segundo processo, sobre as irregularidades na compra dos respiradores, Moisés foi salvo pela ALESC. Com os desembargadores votando todos a favor do impeachment, o placar final foi de 6 a 4 para o impedimento. Neste segundo processo, o encontro da motivação com a oportunidade já estava melhor articulado. O detalhe é a necessidade de 7 votos a favor para que se dê a condenação. Com o regulamento embaixo do braço, estava salvo o governador.

O que mudou do primeiro para o segundo processo? Bom, o comandante resolveu fazer política, seguindo, de certa forma, o seu antigo aliado presidencial. A diferença é que se Bolsonaro vendeu o governo para o centrão, na figura de Arthur Lira e sua bancada suprapartidária, o governador Moisés achou melhor conversar com o MDB, o partido com a maior bancada na ALESC e com mais filiados no estado. A entrada do partido organizou a sua articulação política, trouxe mais deputados para o seu entorno e abriu as portas para que Moisés dialogasse mais, distribuísse mais cargos e garantisse a estabilidade.

Nesse processo todo, Moisés também resolveu sair do PSL, assim como Bolsonaro, e ficou bastante tempo fora de um partido, fazendo a sua novela particular. Entre idas e vindas, negociações e cenários, o governador optou pelo Republicanos, partido ligado as igrejas evangélicas, que lhe dava uma casa, mas não garantia o governo. Faltava algo a mais.

Quem poderia levar o governador Moisés a um segundo mandato? Um só. O Movimento Democrático Brasileiro. Mas esse casamento, usando uma metáfora do presidente Bolsonaro, não seria fácil. O partido não estava totalmente convencido e tinha muitos pretendentes para o palácio da Agronômica, como Antídio Lunelli, então prefeito de Jaraguá do Sul.

Lunelli tinha conseguido desbancar grandes nomes do MDB, de Dário Berger a Celso Maldaner. Berger, inclusive, saiu em busca de uma nova casa no PSB. O que Lunelli não tinha era os deputados e prefeitos do MDB, que não estavam convencidos com essa aventura e, além disso, ficaram próximos da máquina do governo estadual, com todo seu dinheiro. O cálculo era simples: largamos um aliado com a máquina estadual e chances de reeleição por um projeto solo, com um relativo desconhecido e muito mais concorrência?

Mesmo que o cálculo fosse desfavorável para Lunelli, o empresário catarinense que se orgulha do seu caráter moralizador das contas públicas, do estado mínimo e da antipolítica, quase venceu. Mas, o governismo foi mais forte. Assim, o MDB, aliado a Moisés, garantiu um vice na figura de Udo Dohler, empresário e ex-prefeito de Joinville, e o Senado, com Celso Maldaner, de uma família política de tradição no estado. Nem tudo é novidade.

Há quatro anos, Moisés poderia não saber governar, nem tinha uma grande agenda para o estado. Em 2022, o mesmo não pode ser dito, porque algumas coisas ele percebeu que são importantes no trabalho político do governador. Nas visitas as cidades do interior, nas promessas de obras e em algumas entregas. Se as promessas forem em forma de estradas, ele ganha uma medalha. E não faltou asfalto. O governo Moisés entregou mais uma faixa na via expressa, na Grande Florianópolis, assumiu a duplicação da BR-470 e prometeu reformas. Disse até que construiria mais pontes que ligassem o estado ao Rio Grande do Sul.

Além disso, o governador entregou um aumento do piso dos professores do estado e cumpriu uma promessa de campanha, ao extinguir as 20 Agências de Desenvolvimento Regional, criados no governo Luiz Henrique da Silveira, do (P)MDB, “por toda a Santa Catarina”.

No balanço do governo Moisés, ele não gera grandes paixões. Seu resultado de aprovação é bastante morno, 35% o consideram bom, 36% regular e 26% péssimo. Nas pesquisas eleitorais, até agora é o primeiro colocado, com 25% das intenções de voto, o que leva para o segundo turno, mas não garante a vitória. Assim como Paulo Afonso, em 1997, Moisés sofreu um processo de impeachment, mas seu governo pode terminar melhor do que a do antigo governador do MDB.

Uma última coisa a se notar de Carlos Moisés é que seu estilo de vestuário mudou, ainda que continue sendo um político “despojado”, que basicamente significa dizer que ele usa casaco de terno sem gravata, dando uma ideia de juventude para o governador. Moisés não é velho, longe disso. Porém, nos últimos meses, o governador parece ter uma inspiração óbvia no presidente da Ucrânia Volodomir Zelensky, apostando em jaquetas, camiseta e (bastante) na cor verde. Além de uma mudança no seu corte de cabelo. Os dois são, de fato, políticos de fora da política e jovens. De resto, a diferença é bastante acentuada. Nota-se, também, uma questão na aliança com a extrema-direita.

Na disputa eleitoral, o Comandante Moisés nascido em 2018 é diferente do Governador Carlos Moisés que vai disputar as eleições em 2022. O problema é saber se isso é o suficiente.

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