Sem futuro e sem passado

No dia 2 de setembro de 2018, o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro, virou cinzas. O museu mais antigo do país, fundado há mais de dois séculos, destruído, levando com ele a maior parte do acervo de mais de 20 milhões de itens. Infelizmente, esse foi o momento da história recente onde o museu esteve em maior destaque na mídia, na política e na sociedade como um todo. E isto acabou levantando alguns pontos interessantes sobre educação, ciência e cultura, que eu acredito valer a pena falar aqui. Eu vou tentar não deixar esse texto pessoal demais, mas falando como historiador e professor, não tenho como não sentir o abalo desta perda.


Em primeiro lugar, é necessário destacar o tamanho do impacto para o Brasil. Pode soar presunçoso dizer que há impacto no país como um todo, mas neste caso, eu acredito que não seja exagero. Era o maior museu de antropologia e paleontologia da América Latina. O prédio em si era patrimônio histórico, tendo sido a residência da família real. Lá estava, por exemplo, a versão original da Lei Áurea, de 1888. Lá estavam múmias trazidas do Egito em 1826 pelo então imperador Dom Pedro II. Lá estava Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas. Lá estava uma coleção de cerca de 10 milhões de insetos. Lá estavam esqueletos de dinossauros que habitaram o local onde hoje é Brasil. Lá estavam as únicas gravações de idiomas indígenas dos quais não existem mais falantes vivos. Lá estavam afrescos de Pompéia, que haviam sobrevivido à erupção do vulcão Vesúvio no ano 79 d. C.

Estavam.

Praticamente todo o acervo se foi. Perde a história, perde a antropologia, perde a linguística, perde a paleontologia, perde a biologia… Perde o Brasil. Perde a humanidade, pois muito do conhecimento ali presente nunca mais poderá ser recuperado (caso da linguística, por exemplo). Um dos maiores (ao menos em potencial) centros de pesquisa e difusão do conhecimento do país está em ruínas. Irrecuperável.


O incêndio era uma tragédia anunciada: desde 2013 a instituição vinha recebendo menos do que o necessário para se manter. Não por coincidência, foi mais ou menos nesta época que o governo petista, refém de um congresso ligado a interesses do mercado internacional e de uma crise política e econômica, passou a adotar medidas de austeridade.. Sim, o problema é antigo, não começou com o Temer. Porém, qualquer um que veja o gráfico de repasses federais ao Museu Nacional pode perceber que, neste ano, a verba destinada ao museu foi muito menor do que nos anos anteriores.

Não por acaso, a situação do museu se agrava durante um governo que fez tudo o que esteve ao seu alcance para aprovar a PEC do Teto, que congela investimentos em saúde e educação por 20 anos. O mesmo governo que praticamente decretou o fim das bolsas de pesquisa da CAPES. Por isso eu acho importante destacar que o que aconteceu não foi uma “fatalidade” ou uma “tragédia”. Foi consequência direta de uma política deste governo de sucatear o serviço público para que haja justificativa em uma eventual proposta de privatização. Esta não foi a primeira e nem será a última consequência desta política. Nos próximos 20 anos, podemos perder muito mais. E produzir cada vez menos.

E por mais que tentem nos convencer do contrário, não nos enganemos: a privatização não é a solução. Educação privada, na prática, significaria que apenas quem pode pagar teria acesso, o que inevitavelmente aumentaria a desigualdade social no Brasil. Ciência privada significaria a pesquisa focada em interesse comerciais, e não no que traz benefícios para a sociedade. Saúde privada, na prática, significaria a morte das pessoas mais pobres. É desumano defender isso.

A privatização destes setores seria (ou “será”?) a largada de uma “corrida de cérebros”: intelectuais que tenham condições, deixarão o país, como fizeram, por exemplo, durante a ditadura militar brasileira e em tantos outros governos neo-liberais pelo mundo.

E, com uma educação sucateada, surgirão cada vez menos intelectuais.

Deixaremos, então, de ser o país do futuro. E, com o passado incendiado, nos tornaremos o país que parou no tempo.



Para saber mais

Para quem quiser ter uma melhor noção do impacto da perda que tivemos, recomendo acessar o site oficial do Museu Nacional e ver as coleções que lá estavam e as atividades desenvolvidas pelos pesquisadores dali.

Quanto às informações referentes aos repasses federais, vale dar uma olhada nesse artigo da Folha.

E sobre a PEC do Teto, eu recomendo essa notícia, de dezembro de 2016, quando ela foi aprovada. Vale pesquisar quem defendeu e quem denunciou, já que muitos deles estão presentes na política nacional até hoje pedindo nossos votos.

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