O PT sem Lula

No dia 10 de setembro, o Partido dos Trabalhadores confirmou Fernando Haddad como substituto de Lula na candidatura presidencial, com Manuela D’Ávila, do PCdoB como vice. A substituição já era esperada, mas agora que está oficializada a chapa Haddad-Manuela pode embarcar plenamente na campanha, faltando menos de um mês para a eleição. Dá tempo?


Fernando Haddad foi eleito prefeito de São Paulo em 2012, mas perdeu a reeleição no primeiro turno para João Dória em 2016. Isso não chega a ser demérito, já que o processo de impeachment de Dilma Rousseff estava a todo vapor e o antipetismo estava em seu auge. O PT “encolheu” muito durante o processo que culminaria no impedimento da presidenta eleita e o início do governo Temer, tanto em numero de filiados quanto em vitórias eleitorais. Além disso, São Paulo sempre foi um território bastante dominado pelo PSDB, onde o PT encontra dificuldades.

Fora do eixo Sul-Sudeste, Haddad não é tão conhecido. E o eleitor do Nordeste, que sempre foi a grande força do PT, conhece Ciro Gomes, que já foi governador do Ceará. Este é primeiro grande obstáculo do petista: começando a campanha com quase um mês de atraso, ainda precisa se apresentar para boa parte do eleitorado. E então, podetemos saber se o voto de Lula é transferido para Haddad ou não.

Por outro lado, desde que foi apresentado como possibilidade nas pesquisas de intenção de voto, Haddad foi o que mais cresceu, proporcionalmente. Nas primeiras pesquisas, ainda sem certeza da viabilidade da candidatura de Lula, ele aparecia como candidato de cerca de 3% dos eleitores entrevistados. Nas últimas pesquisas do Ibope e do Datafolha, o ex-prefeito já aparece com cerca de 9% das intenções de voto. Triplicou seu eleitorado, antes mesmo de começar, de fato, sua campanha. Esta transferência tão rápida pode ser explicada pelo fato de que muitos candidatos aos governos estaduais, deputados e senadores pediram material de campanha com o nome de Haddad, já que ter o apoio de um candidato à presidência costuma refletir positivamente nessas campanhas.

Na pesquisa Vox Populi divulgada no dia 13 de setembro, Haddad apareceu em primeiro lugar, superando até mesmo Jair Bolsonaro. Obviamente, esta pesquisa precisa ser encarada com cautela, já que a Vox Populi historicamente mostra os candidatos mais à esquerda melhor colocados. No entanto, esta foi a uma das poucas pesquisas que destacou ao eleitor que Fernando Haddad era “o candidato apoiado por Lula”. Por causa disso, acredito que o dado mais interessante a ser tirado desta pesquisa é o “potencial de transferência” do voto de Lula para Haddad, que aparentemente é significativo. Esta tendência se mostrava desde o final de agosto, quando o Poder360 fez uma pesquisa de “potencial de voto” de cada candidato. Naquele momento, 34% das pessoas entrevistadas cogitavam o voto em Haddad, caso ele fosse apoiado pelo ex-presidente Lula. Obviamente, muita coisa mudou desde aquela época, mas a tendência de crescimento do ex-prefeito se mantém.

Se apenas um terço dos eleitores que pretendiam votar em Lula acabarem votando em Haddad, isto já seria o suficiente para que o candidato petista tivesse grandes chances de ir ao segundo turno. Contudo, Haddad é o único que, segundo Datafolha e Ibope, apresentaria dificuldades para vencer Bolsonaro no segundo turno, o que pode preocupar eleitores que temam a eleição do ex-militar e “empurrá-los” para outros candidatos que apresentem uma possibilidade de vitória mais “garantida”. Por outro lado, Haddad é o candidato que apresenta o maior potencial de crescimento, pois sua campanha “começou atrasada” e, mesmo que o sentimento de antipetismo ainda seja um grande obstáculo a ser vencido, a rejeição do próprio candidato não é alta.

A maioria dos outros candidatos parece ter chegado em seu “limite” para este primeiro turno. Nem mesmo o atentado contra Jair Bolsonaro foi o suficiente para alterar significativamente o cenário. Resta saber qual o “limite” de Haddad e qual o impacto que a campanha “plena” terá em sua votação. O rápido crescimento mostra que o tempo em si pode não ser um problema. De qualquer forma, é cedo para definir o cenário eleitoral. Cada vez mais tenho a impressão de que a decisão de boa parte do eleitorado se dará somente próximo da eleição.



Para saber mais

Este texto foi um pouco mais uma análise de conjuntura e das pesquisas eleitorais do que qualquer outra coisa. Sendo assim, não posso deixar de indicar as fontes destas pesquisas. A primeira citada no texto é a da Vox Populi, divulgada em 13 de setembro.

A segunda pesquisa que citei, foi a do Poder 360. Neste caso, vale a pena conferir os demais dados pesquisados, ainda que estejam inevitavelmente defasados.

Indico ainda, de forma geral, o Foro de Teresina, podcast semanal da Revista Piauí que fala sobre política nacional.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *